quinta-feira, 24 de abril de 2014

A poética de Manoel de Barros - Matéria de poesia

Uma das temáticas mais encantadoras de trabalhar na disciplina de Literatura Brasileira IV é o Pós-Modernismo, pois temos a oportunidade de conhecer a obra de Manoel de Barros. O poeta é um dos que tem em sua essência a incompletude e a fragmentação características desse momento da literatura.
Assistir ao filme é entrar no universo do autor que escreve como criança. Podemos visualizar sua rotina, conhecer de perto a "matéria da sua poesia". Através das imagens, da fala do poeta, vislumbramos também o contexto do autor e por conseguinte a própria teoria Pós-modernista.

Segue abaixo, Matéria de poesia, metapoema em que Manoel, elege as pequenas coisas como fundamentais a sua escrita.

I Matéria da Poesia

1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
(...)

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.

2.
Muito coisa se poderia fazer em favor da poesia:

a — Esfregar pedras na paisagem.
b — Perder a inteligência das coisas para vê-las.
(Colhida em Rimbaud)
c — Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.
d — Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em
Carlitos.
e — Perguntar distraído: — O que há de você na
água?
f — Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas
de Mário-pega-sapo era nua. Por isso as
crianças e as putas do jardim o entendiam.
g — Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos,
terens de rua e de música, cisco de olho, moscas
de pensão...
h — Aprender a capinar com enxada cega.
i — Nos dias de lazer, compor um muro podre para
caramujos
j — Deixar os substantivos passarem anos no esterco,
deitados de barriga, até que eles possam carrear
para o poema um gosto de chão - como cabelos
desfeitos no chão — ou como o bule de Braque
— áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro
— um amarelo grosso de ouro da terra, carvão de
folhas.
l — Jogar pedrinhas nim moscas...
(...)



Publicado no livro Matéria de Poesia (1974).

In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Linguagem realmente inquietante do poeta. Para além de qualquer análise sobre forma, Manoel de Barros coloca em questão os valores de uma sociedade, afinal o que vale mais: um carro de luxo ou "chevrolé gosmento"?

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    1. Isso mesmo Alberto, penso que para o poeta a mais valia está nas ditas coisas menores, que por sinal só são diminutas perante parte da sociedade não para ele.

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