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terça-feira, 27 de dezembro de 2022
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Reflexões sobre o Pós-modenismo - por Cid Otoni Bylaardt
O termo Pós-modernismo soa estranho, porque parece conter uma oposição declarada ao Modernismo, ou sua supressão, ou sua superação. O termo pode ser considerado ainda semanticamente instável, nada consensual entre os estudiosos. Entretanto, essa parece ser a expressão que cada vez mais se firma nos meios intelectuais com referência a essa época que abrange difusamente a segunda metade do século XX e o início do século XXI. Ihab Hassan, em seu livro The dismemberment of Orpheus, propõe um termo no mínimo insólito: Age of Indetermanence, uma combinaçãode intederminacy e imanence ((em português seria algo do tipo Era da Indetermanência, de indeterminação e imanência)).Na literatura, redescobrimos constantemente obras precursoras do Pós-modernismo como as de Sade, Rimbaud, Proust, Mallarmé, Hölderlin, Kafka, Beckett, Faulkner, Joyce, Borges. No Brasil, é surpreendente a "pósmodernidade" de Machado de Assis, Clarice Lispector,Guimarães Rosa e Manoel de Barros para não falar de certos textos de Drummond,Quintana por exemplo. Algumas dessas obras são normalmente caracterizadas como modernistas, e algumas mesmo como pré-modernas, o que contribui para a instabilidade da expressão "Pós-modernismo".Não podemos, por conseguinte, definir Pós-modernismo, não podemos estabelecer seus limites, não podemos assegurar seus traços dominantes. Podemos, entretanto, falar sobre essa instabilidade, esse deslizamento, em que o significante abalado ressoa o próprio abalo do período artístico, que não se assenta sobre sólidas fundações.
Extraído da apostila da disciplina Literatura Brasileira IV para UFC Virtual.
Autor: Professor coordenador da disciplina Cid Otoni Bylaardt.
Literatura Brasileira IV
Olá a todos!
Pretendemos neste espaço debater acerca do último período da Literatura brasileira. Estamos na contemporaneidade e a partir da poética de Manoel de Barros, vamos estudar a teoria Pós-Moderna. Contamos inicialmente com um filme/documentário sobre o poeta e um metapoema seu.
Esperamos que leiam, reflitam e deixem seus comentários.
Suas contribuições são fundamentais para o bom desenvolvimento do blog e de nossa disciplina, que terá nesse espaço mais uma ferramenta de aprendizagem.
Bons estudos!
Atenciosamente,
Ana Cláudia e Christian.
Pretendemos neste espaço debater acerca do último período da Literatura brasileira. Estamos na contemporaneidade e a partir da poética de Manoel de Barros, vamos estudar a teoria Pós-Moderna. Contamos inicialmente com um filme/documentário sobre o poeta e um metapoema seu.
Esperamos que leiam, reflitam e deixem seus comentários.
Suas contribuições são fundamentais para o bom desenvolvimento do blog e de nossa disciplina, que terá nesse espaço mais uma ferramenta de aprendizagem.
Bons estudos!
Atenciosamente,
Ana Cláudia e Christian.
A poética de Manoel de Barros - Matéria de poesia
Uma das temáticas mais encantadoras de trabalhar na disciplina de Literatura Brasileira IV é o Pós-Modernismo, pois temos a oportunidade de conhecer a obra de Manoel de Barros. O poeta é um dos que tem em sua essência a incompletude e a fragmentação características desse momento da literatura.
Assistir ao filme é entrar no universo do autor que escreve como criança. Podemos visualizar sua rotina, conhecer de perto a "matéria da sua poesia". Através das imagens, da fala do poeta, vislumbramos também o contexto do autor e por conseguinte a própria teoria Pós-modernista.
Segue abaixo, Matéria de poesia, metapoema em que Manoel, elege as pequenas coisas como fundamentais a sua escrita.
Assistir ao filme é entrar no universo do autor que escreve como criança. Podemos visualizar sua rotina, conhecer de perto a "matéria da sua poesia". Através das imagens, da fala do poeta, vislumbramos também o contexto do autor e por conseguinte a própria teoria Pós-modernista.
Segue abaixo, Matéria de poesia, metapoema em que Manoel, elege as pequenas coisas como fundamentais a sua escrita.
I Matéria da Poesia
1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
(...)
O que é bom para o lixo é bom para a poesia
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora
Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória
As coisas sem importância são bens de poesia
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.
2.
Muito coisa se poderia fazer em favor da poesia:
a — Esfregar pedras na paisagem.
b — Perder a inteligência das coisas para vê-las.
(Colhida em Rimbaud)
c — Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.
d — Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em
Carlitos.
e — Perguntar distraído: — O que há de você na
água?
f — Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas
de Mário-pega-sapo era nua. Por isso as
crianças e as putas do jardim o entendiam.
g — Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos,
terens de rua e de música, cisco de olho, moscas
de pensão...
h — Aprender a capinar com enxada cega.
i — Nos dias de lazer, compor um muro podre para
caramujos
j — Deixar os substantivos passarem anos no esterco,
deitados de barriga, até que eles possam carrear
para o poema um gosto de chão - como cabelos
desfeitos no chão — ou como o bule de Braque
— áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro
— um amarelo grosso de ouro da terra, carvão de
folhas.
l — Jogar pedrinhas nim moscas...
(...)
Publicado no livro Matéria de Poesia (1974).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
1.
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia
(...)
O que é bom para o lixo é bom para a poesia
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora
Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória
As coisas sem importância são bens de poesia
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.
2.
Muito coisa se poderia fazer em favor da poesia:
a — Esfregar pedras na paisagem.
b — Perder a inteligência das coisas para vê-las.
(Colhida em Rimbaud)
c — Esconder-se por trás das palavras para mostrar-se.
d — Mesmo sem fome, comer as botas. O resto em
Carlitos.
e — Perguntar distraído: — O que há de você na
água?
f — Não usar colarinho duro. A fala de furnas brenhentas
de Mário-pega-sapo era nua. Por isso as
crianças e as putas do jardim o entendiam.
g — Nos versos mais transparentes enfiar pregos sujos,
terens de rua e de música, cisco de olho, moscas
de pensão...
h — Aprender a capinar com enxada cega.
i — Nos dias de lazer, compor um muro podre para
caramujos
j — Deixar os substantivos passarem anos no esterco,
deitados de barriga, até que eles possam carrear
para o poema um gosto de chão - como cabelos
desfeitos no chão — ou como o bule de Braque
— áspero de ferrugem, mistura de azuis e ouro
— um amarelo grosso de ouro da terra, carvão de
folhas.
l — Jogar pedrinhas nim moscas...
(...)
Publicado no livro Matéria de Poesia (1974).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
A poética de Manoel de Barros - Filme/documentário Só dez por cento é mentira
Só Dez Por Cento é Mentira é um original mergulho cinematográfico na biografia inventada e nos versos fantásticos do poeta sulmatogrossense Manoel de Barros.
Alternando sequências de entrevistas inéditas do escritor, versos de sua obra e depoimentos de “leitores contagiados” por sua literatura o filme constrói um painel revelador da linguagem do poeta, considerado o mais inovador em língua portuguesa.
Fonte:http://www.sodez.com.br/o_filme.htm
Fonte:http://www.sodez.com.br/o_filme.htm
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